sábado, 25 de abril de 2015

Instigante, sinistro, porém auspicioso - pessoas que não gostam de música





"O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto 
de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas".

(William Shakespeare)


A música está presente em todas as culturas desde a pré-história e parece ser uma manifestação humana natural e inescapável. Muitos de nós consideramos a música um dos maiores prazeres existentes, senão o maior - e mais que isso, imaginamos que esse deleite é compartilhado por todas as pessoas, sem exceção; afinal, uma bela canção tem o poder miraculoso de transmitir sensações, emoções e estados de espíritos muito bons os mais variados (até mesmo a melancolia e as lágrimas ao ouvir certas melodias podem ser bastante prazerosas, ou ao menos catárticas.) 

De fato, uma boa parte de nós não conseguimos sequer imaginar a vida sem música, ela nos é tão fundamental como respirar. Música é uma unanimidade então, uma paixão de todos, certo? CALMA LÁ, PENSE DUAS VEZES. Para espanto de muitos, até de cientistas, pode parecer estranho e inconcebível, mas existem pessoas que são completamente indiferentes mesmo à mais maravilhosa peça musical, outras que chegam mesmo a se irritar profundamente com ela, com qualquer conjunto de notas e acordes organizados harmonicamente em uma música, por mais bela que seja. 

Isso é resultado de uma constatação de estudiosos, à qual se seguiu o resultado de uma extensa pesquisa, que foi publicado na revista Current Biology. Os cientistas da Universidade de Barcelona - Espanha, coordenados por Josep Marco-Pallarés, nomearam a incapacidade de apreciar a música como "anedonia musical específica" e descreveram a existência dessas pessoas que não sentem prazer musical, embora possam ser perfeitamente sensíveis a outros estímulos e interessarem-se por outras coisas. 

À parte aquelas apenas temporariamente insensíveis ou pouco estimuladas pela música, como por exemplo em algumas depressões, ao menos até o momento evitou-se classificar a "anedonia musical" como doença ou disfunção e limitou-se a defini-la como uma mera característica pessoal, própria de indivíduos nos quais a melodia não libera os hormônios do prazer. No entanto, em alguns estudos iniciais ainda incipientes, verificou-se marcadamente uma baixa taxa de afetividade e empatia nas pessoas estudadas, que parece apontar fortemente para a existência de traços psicopáticos e sociopáticos. 

A anedonia musical específica não é tão comum, nem exatamente uma raridade. Num trabalho anterior, a equipe de Josep Marco-Pallarés testou 1.500 pessoas. Cerca de 5,5% apresentaram baixa sensibilidade ao prazer derivado da música, embora sentissem motivação normal em relação a outros estímulos (comida, sexo, dinheiro, etc.) Intrigado com os primeiros resultados, Josep decidiu continuar a investigação. 

No novo estudo, demonstrou que essas pessoas não têm nenhuma dificuldade de percepção musical; são capazes de reconhecer corretamente as emoções proporcionadas pela música, mas apenas num nível racional, portanto são emocionalmente indiferentes a ela. Na pesquisa, a descarga de hormônios no cérebro e outros parâmetros fisiológicos (como frequência cardíaca e condutividade elétrica da pele) foram avaliados em dois momentos: primeiro quando os voluntários participaram de um jogo em que podiam ganhar ou perder dinheiro de verdade; depois, no momento em que ouviam música. 

Todos os voluntários reagiram fisiologicamente ao teste do dinheiro, mas uma parcela não reagiu ao estímulo musical. Não há Beethoven, Pink Floyd, Maria Callas, Cartola ou Lepo Lepo capaz de mexer com esses indivíduos. Além de curiosa, instigante e algo assustadora, a descoberta tem valor científico em diversas áreas.

 "Alguns exemplos: a identificação dessas pessoas pode ser importante para entender as bases neurais da música - ou seja, entender como um conjunto de notas é traduzido em emoções -; tem também grande interesse nas áreas jurídico/criminal e da psicologia/psiquiatria, como um possível auxiliar na determinação da complexa e ainda misteriosa psicopatia, eventualmente para encontrar formas de curá-la ou amenizá-la. As possibilidades são ilimitadas", diz Josep. 

"Numa outra análise, o fato de existir gente que não gosta de música, mas sente prazer com outros estímulos, indica que temos diferentes formas de acessar o sistema de recompensa do cérebro", afirma ele. "Alguns estímulos podem ser mais eficazes que outros". O sistema de recompensa do cérebro é aquele que produz bem-estar e euforia quando estimulado. É por isso que sentimos desejo de repetir uma sensação prazerosa. Entender o papel dos diferentes estímulos pode contribuir para as pesquisas sobre dependência química e/ou psicológica, sobre transtornos do humor, etc., e estudar terapêuticas para curá-los.

Teste de Grau de Interesse Musical

Você gostaria de saber seu grau de interesse musical? No link abaixo há um teste criado  pela Universidade de Barcelona. O resultado sai na hora, assim que você clica em "Send" ("enviar"). Os valores-base são 40 e 60: entre 40 e 60, o interesse é normal; abaixo de 40 é baixo e acima de 60 é alto. (Obs.: o teste está em inglês. Embora seja pequeno e bastante simples de entender, quem desejar uma tradução, favor contactar lyahkafrun@gmail.com.)




A canção abaixo, "Rivers Flow in You", foi composta e executada pelo pianista/compositor japonês Yiruma. Pessoas com grau normal ou alto de prazer musical deverão apreciá-la muito (mas evidente que deve-se considerar também o gosto pessoal, muito variável.)


Rivers Flow In You - Yiruma

Reações:

7 comentários:

Anônimo disse...

Primeiro, meu resultado do teste foi altíssimo, desta forma não me enquadro nos possíveis perfis psicopatas descritos no texto. Ufa! desta escapei.
Segundo, foi necessário eu ouvir 37 vezes (sem contar que estou escrevendo e ouvindo novamente) para ter certeza que sim, a canção é belíssima!
Terceiro, muito bom o encaixe do texto - Quadrado-Direto-Especifico chega a ser cruel. Sugiro que se entregue a leitura e após o teste e a canção se percebe quem realmente ama a musica, o mundo volta a girar!

Lyah Kafrun disse...

Oi, Marcinho

Ih, olha o tipo dele... Nem vai botando as manguinhas de fora, porque tá assim de psicopata serial killer que curte música. Lembra do Hannibal Lecter de O Silêncio dos Inocentes, aquele que curtia um bom lombo de gente... VIVA? MWAHAHAHAHAHA... E tem mais, se você precisou ouvir 37 vezes pra concluir que a música é bonita, aí tem... Quanto à tua sugestão de só deixar a música pros que a amam ouvir... nada feito. Sá purquê? É que eu sou sádica, má e perversa, e este blog tem uma outra utilidade pra mim além de mostrar ao mundo a minha genialidade e sensibilidade de ser superior: torturar os leitores E OUVINTES (neste caso, os odiadores de música). YAHAHAHA!!!!

Marlon Sérgio disse...

Maravilha esta postagem. Demorou, mas valeu a pena. Muito interessante essa abordagem e me lembra uma pessoa - que não vou dizer que é - que não gostava de música. Eu nunca a vi ou a encontrei ouvindo uma canção sequer. Isso, pra mim, que sou movido à música, sempre me deixou muito intrigado. Mas aos poucos esta pessoa foi revelando cada vez mais facetas de um clássico psicótico.

Muito bom. Não que não existam psicopatas que adoram música, mas creio que estes sejam melhores almas. rsrs

Parabéns, Liane! Essa sua capacidade única de associar a música com tantos outros temas tão presentes também em nosso cotidiano. Olha, ouvi essa canção do post umas 10 vezes. Belíssima.

Vc bem que podia escrever pelo menos dois artigos semanais, né? O sucesso é sempre garantido. Bjos.

Acrescentei alguns botões de redes sociais para "likes" e "share", No cabeçalho e no final das postagens. Acho que ficou legal.

Lyah Kafrun disse...

Obrigada, Marlon. E estas não são palavras vazias ditas só por gentileza ou obrigação. Eu te agradeço porque é realmente muito precioso e incrível para mim que, mesmo depois de tantos anos que a gente convive (e portanto poderíamos estar saturados um do outro, nem enxergarmos mais nossas qualidades mútuas), você continua valorizando a mim e às minhas manifestações - digamos - "artísticas". (E eu também ainda te valorizo muito e - impressionante!!! - até consigo me surpreender vez por outra com algo que vem de você, como se tivesse te conhecido ontem e tudo fosse novo entre nós. Isso é pura mágica pra mim!) É bem verdade que se tivéssemos nos conhecido, tudo poderia ser mais intenso, profundo e sólido - e me arrisco a dizer, talvez eterno -, mas não é pouca coisa que ainda sintamos admiração e algo próximo de carinho um pelo outro - não existe um nome para o que é, mas é bonito, raro, importante e deve ser muito bem guardado por nós, "do lado esquerdo do peito, debaixo de sete chaves". (Flávio Venturini). (Agora, não sei você, mas eu até hoje não descarto a possibilidade de nos conhecermos, apesar de todas as dificuldades que poderíamos ter. Acredito que nada é impossível e todo problema tem solução. Pode até ser ilusão minha, pode ser que nem te passe pela cabeça me conhecer, mas pouco me importa. Sonhar é tão deliciosamente bom... (pra essa gente maluca de Peixes... heheheh Mas ah, se eu pudesse te jogar um pouco do meu pó de pirlimpimpim de Peixes você entenderia e entraria no clima.) E... pela trilionésima vez quero te lembrar que não foi um qualquer que gostou do meu post; foi você, esse cara tão sensível, de bom gosto, senso artístico, inteligente, profundo (e deve ser meio maluquete, não sei < no bom sentido - e isso é um elogio pra mim. Deus me livre e guarde de pessoas sem uma pitada de sandice.) Já conversamos de milhões de coisas desta e de outras galáxias e sempre chegando junto, cada um compreendendo e complementando a coisa mais doida que o outro dizia - e ainda faltam mais milhões e milhões. Eu acho eu e você a maior dupla de área, Romário e Bebeto perto de nós eram fichinha. Juntos podemos fazer mais gols que Pelé - e uma prova disso é este blog, a materialização das nossas inúmeras afinidades e dons, uma das nossas "empreitadas criativas" mais lindas, inspiradas e companheiras, feita com um amor pela música e pela beleza que compartilhamos, e talvez por isso tenha resistido esse tempo todo, sobrevivido firme e forte às nossas chuvas e trovoadas. Olha, eu não acredito em almas gêmeas, sei que podemos nos dar bem com muitas e muitas pessoas, mas de certeza seu Sílvio e Dona Marlene te "fabricaram" no formato, cor e sabor certinhos pra uma pessoa como eu.

E aproveito a deixa pra terminar, com um abraço de agradecimento aos teus papais, as pessoas mais criativas e competentes que eu conheço. (E ainda tiveram o bom senso de jogar fora a fórmula... Fala sério, dois Marlons a humanidade não aguentava... eheheheheheh)

Roni Sauaf disse...

Liiiii, minha pupila predileta q vai tirar o lugar da Hayley Williams no Paramore!!!!!! demorô hein?........... bão, quero sabê o seguinte, curtir power heavy metal serve pra naum ser considerado psicopata? mas eh muuuuito metal......... o tempo todo praticamente, com pausa só pra rangá, ir no banco e... well, you know.......... de duas uma, ou eu sou mto normal ou sou mó serial killer, pq dizem que heavy metal é música do capeta........ mas, pensando bem, acho que eu sou mesmo é um CEREAL killer, pq adoro um sucrilho Kellogs de chocolate com leite gelado de manhã........ sei lá, acho que assassinos cruéis naum devem ser chegados em sucrilho.............. pelo menos eu naum consigo imaginar jack o estripador comendo coisas como sucrilhos, mingau, aveia quaker, nescau, nutella, pipoca........ Mas Li, falando sério agora, maravilha de post, tema mto do caralho e a música eh amor a primeira ouvida, e a segunda, e a terceira, e a quarta............. e assim por diante (yes, metaleiros tb amam.)

Bjs

Lyah Kafrun disse...

Oi, querido mestre...

Ah, como é louco e incrível sonhar em ser uma Hayley Williams... E ter uma mão firme e segura como a tua pra me orientar, estimular, botar sempre pra frente e pra cima, com o teu jeito todo especial, competente, paciente e doce de ensinar e incentivar.

A música é sem dúvida alguma a melhor coisa da minha vida hoje, algo louco e inesperado, tomando rumos que eu nunca imaginei!!! A gente sabe o quão difícil é o caminho que escolhemos, mas quem sabe? Uma coisa é certa: quem não tenta é que não consegue mesmo.

Sobre o post... eu sabia que você seria um dos primeiros a vir aqui me "visitar", curtir e incentivar o meu trabalho... :) Definitivamente, você está fortemente ligado e é parte importantíssima e inseparável da minha vida artística (a música e a escrita).

Olha, sei que você falou brincando aquele lance da psicopatia, mas vou responder sério: você é uma pessoa das mais legais, bondosas, puras, despreendidas e generosas que eu conheço. Se fosse psicopata, não sei quem seria normal...

E continuemos assim, cada vez mais criando, cantando e ouvindo muita música!

Um beijão

Terre Nunes disse...

Minha amiga, como não poderia deixar de ser, vc chamou e cá estou eu. Não esperava nada diferente de vc, mas muitíssimo interessante esse post. Tema mto envolvente, realmente instigante, como diz o título - e o que parecia impossível, novo para mim, nunca tinha ouvido falar. Música maravilhosa e emocionante. Tudo perfeito, como sempre.

Postar um comentário

Clique dentro da caixa e digite seu comentário!

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Enterprise Project Management